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September 13, 2007 05:32 AM PDT
Guarde os tostões
E o rascunho de um poema
Que não acabei
Deixado sobre o teu criado mudo
Naquela manhã de quarta-feira
Como prenúncio do meu adeus
Depois disso
Te aconselho mudar
a mobília do teu quarto
E a fotografia na moldura
Ao lado da cama
Guarde com carinho
Os discos do Caetano
Não precisarás mais deles
Mesmo quando sentir
as voltas com a tristeza
ou o efeito da saudade
Ou se alguma lembrança
Vier lhe incomodar na madrugada
Pense no carnaval do ano passado
Ou no próspero que irá chegar
Se assim mesmo persistirem
Como alaridos recorrentes
Lembre, com nostalgia
dos amores que teve antes do meu
Mas esqueça deste último
que escorreu pela palma da tua mão
Sem perceber
Do contrário...
Durma,
antes que o dia amanheça.
August 04, 2007 07:14 PM PDT
Ah! Essa tal de "internet"!!! Esse oceano que nos traz as pessoas com suas marés, suas brumas e que acabam comungando conosco na praia. São tantas ondas e tantas pessoas! Nos causam furor as vezes. As vezes nos trazem o crescimento. Foi numa dessas brumas que veio a poeta paranaense Bárbara Lia. Mulher que não se encaixa numa solitária linha de escrita. Bárbara é grande e nata expectadora do universo que tange o teu redor. Além da grandeza que lhe concerne, Bárbara é generosa. Tem faltado artistas com sua generosidade hoje em dia.
De cá do baixo de onde me encontro posso assumí-la como minha mais nova amiga.
Abaixo transcrevo tua crítica - solene - a minha poesia. Ave Bárbara...
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A DANÇA DO POEMA NO ESCURO MILÊNIO
Rogério Santos faz versos que narra o seu tempo. Sua poesia não colore as paredes do agora. Houve um tempo que o homem narrava sua aldeia. Todos os muros caíram e os poetas perplexos tentam reunir o espanto em seus versos que não são mais de jardins, mas, de cidades desmoronadas. Tempos duros demais para o poema:
Infelizmente eu escrevo
Sobre uma evidência
Que me conduzirá à garganta da noite.
A ausência do nítido norte, que era, na verdade, uma ilusão. Fui criança no tempo em que era possível maquiar a vida dentro dos quintais. Esconder os segredos da humanidade fera. Isto não se faz mais possível. Então, os poetas de hoje não ouvem estrelas, eles as perscrutam, como um sábio buscando segredos. Nem sabem muito bem que caminho seguir, pois as bússolas foram estilhaçadas...
...
o chão sumira
sob a sola suja dos teus pés
que apontavam todas as direções
como um carrossel
...
E neste caos sem volta, as vozes dos poetas não flanam acima como outrora, vão entre as gentes, como ambulantes que anunciam cada qual sua verdade, mesmo que apontassem o paraíso ali na esquina, de nada adiantaria, pois não há mesmo como se acreditar em nada.
BÁRBARA LIA
Curitiba (PR).
04.08.2007
August 04, 2007 07:03 PM PDT
Houve um tempo
Em que em minhas veias
Corria um rio de jasmim.
Naquele sobrado
Com balanço no jardim
E músicas de Villa-Lobos.
Houve um tempo
Em que o barulho da chuva
Adormecia as crianças.
Toda leveza, dias brancos
Em que eu era o algodão doce
Na boca da monotonia...
...E ela a diluir-me
Entre seus dentes
L-e-n-t-a-m-e-n-t-e.
Houve um tempo
Em que acreditei em Deus
E me cobri de lírios...
...Corpo tesão moreno
Em roupas de Woodstock,
Fugindo de mãos lascivas.
Houve um tempo...
As crianças cresceram.
Não há sobrado. Não há Jardim.
Não há Deus...
...Nem melodia de chuva.
O piso branco me acena
Quatro andares abaixo.
A lua zomba da minha solidão.
Ácida, aponta estrelas
Que não são minhas.
Bêbada, me tira pra dançar,
Depois, deita-me naquela cruz
— Cruzeiro do sul.
Acordo
E tem um rio podre
Em minhas veias...
...Rasga e acelera
Meu coração
Em mágoa coagulada.
Nas pessoas, não há sorrisos.
Nem esperanças de primavera.
E na luz do dia, me apavoro...
...Rostos que olho e
Vejo cadáveres,
Meninos mortos, esqueléticos.
Árvores sangrando
Folhas negras
E vento rasgando a rua.
Os cachecóis coloridos
São forcas esgarçadas
E as calçadas, areias movediças.
A música enlouquece em
Guitarras estridentes.
Anjos satânicos dedilhando gritos.
O sol esfria nas artérias.
O aroma do pão fresquinho congela no ar
E não chega aqui, para me lembrar — é dia!
É noite! Apocalipse!
Morte dentro, angústia
De não poder amar-te — Meu Aleph!
Calar o universo que me ninava
Como chuva na grama.
Que me fazia pisar o Jardim de Deus.
É um apocalipse de mágoa,
Ter que calar teu nome,
E não poder gritar saudades.
Poema: Bárbara Lia
Voz e enredo sonoro: Rogério Santos
June 08, 2007 04:31 AM PDT
as 16:30 fôra aceso o incenso
no canto da sala
revestida de arte decó
e cores púrpuras de ópio
pouco depois
seu corpo exaltava a via crucis
como pomba gira sem norte
ou exu na contra-mão
ali, como num teatro
nasciam seus demônios em segredo
e morreriam depois
de jugulares abertas
o chão sumira
sob a sola suja dos teus pés
que apontavam todas as direções
como um carrossel
a boca da noite se abriu
faminta sobre tua cabeça
trazendo a lua consigo
minguando espreitada na janela
... a morte nunca morre as seis da tarde.
April 21, 2007 07:17 AM PDT
Existem dois seres
Que vivem comigo
A vida,
Que está em mim
E a morte
Que anda comigo
Ambas se duelam
E se respeitam também
Cabem-se em mim
E se fundem
A vida
Trabalha anos
A morte
Em minutos
Dizem por ai
Que as duas se revezam
Permanentemente
Num silencioso ciclo
A morte não é maldosa
Embora chegue sem aviso
Já a vida
Avisa previamente
Quando se fecunda
E a morte nasce consigo
Sinto a vida em mim
Enquanto penso
A morte as vezes
É percebida me rondando
Mas anda comigo
O tempo todo
Ambas
Escrevem comigo agora
Ambas
Estão sentadas do meu lado
Nesse momento que escrevo
Se não estivessem aqui comigo
Esse texto não existiria
No entanto aqui se consuma
No mais
E bem fato
É que estou morto
De vontade de viver
April 08, 2007 05:55 PM PDT
Bobagem tua
Querer saber de mim
Devo estar
Dentro de alguma birita
Engarrafado
Na última guimba traiçoeira
Do cigarro
Mas se quiser
Me procure no poço
Lá no fundo
Nadando na euforia
De um grande afogamento
De uma morte sombria
Na maré de incertezas
Carrego tantas comigo
Que as vezes o fardo pesa
As vezes
Sou o próprio peso do fardo
De quem carrega
Não queira saber de mim
Hoje
Não estou pra ninguém
Porque ninguém está comigo
Nem mesmo meu umbigo
Relaxe a razão
Não ligue prá mim
E de mim se desligue
Hoje sou ontem
Ontem não existe mais
Porque só quero paz
Não quero nada mais
Respeite meu ermetismo
E meu copo cheio
De algum venenoso
Tudo que eu quero
É um momento vazio
Uma parede sem quadro
E uma noite sem brilho
Bobagem tua
Querer saber de mim
Canções: "Melodia del Rio" - Rúben González
"Escândalo" - Ângela Rô Rô"
March 20, 2007 05:34 PM PDT
Então
Aquele defunto desgraçado
Exposto e latejado
Entoando um sorriso aflito
Entre os frios lábios
Dizia horrores telepáticos
A quem quisesse ouvir
Ora,
Eu, de sobrenome populesco
Impostor barato e sem cabresto
Com meus dentes ranzinzas
Fitava a nuance de tua testa branca
Em vida
O pobre demônio bestial
recitava a agonia
E dizia-se da vanguarda
Regrado a biritas, baratas
E Ataulfos ao raiar das quatro
Comprava o diabo com cachaça
Se dizia boa praça
De todos os santos e orixás
Que no âmago dos dias próximos
Teu pedigree ia reinar
Mas o tolo presuposto
Que a tantos deu desgosto
Não pulou o carnaval
Não brindou a boemia
Triste fantasia
De cadáver marginal
February 20, 2007 06:27 PM PST
E vendo isso
Senti a necessidade de escrever
Urgentemente
Para evitar a decomposição
De algo ao meu redor
Alguma coisa de tempo
Ou os fios do meu cabelo
Outras coisas mais vãs
Em permanente decomposição
Ante a esses alaridos estranhos
Mas isso
Que de tão estranho
E tão conciso
Ou que não explico
Tem voz
É melodia
E me incita
E me instiga
Ao caminho invisível
E será preciso dizer o que estou vendo
Mesmo que apresente
Uma paisagem falsa
Tem que ser dito
Algo que seja denso
Ou que dê sentido
Mesmo que meu âmago
E minha própria atmosfera limite
Não tem jeito
É recorrente
Infelizmente eu escrevo
Sobre uma evidência
Que me conduzirá à garganta da noite
E só ela
Nenhuma outra
Me trará de volta esse quadro
Esse ruído
Que tampouco explico
Tampouco digo
Só escrevo
January 23, 2007 05:50 AM PST
Virei um marginal silencioso
Que não fala com os outros
E com Deus muito pouco
Mas percebo como um louco
À margem do que está escrito
Meu silêncio é valioso
É preciso
É certeiro
Tem tempo certo
De fato dizer maldoso
E não devo nada por isso
Dia desses atravessei o bosque
Dormindo
Mas não sonhei
Porque sonhar é muito lento
Eu queria ver de perto
Esse plágio de ser eterno
A vida é uma branca página
Escrita a cada dia
Filho da puta de mim
que não escrevo
Porque escrever é nostalgia
Do que veio ou que viria
E em verdade
Tudo tem horário
Tudo tem dia
Porque enfim me marginalizo
Prá não ter percepção de tudo isso
Prá perder os sentidos
Do que prá mim não faz sentido
E a razão talvez explique
Tantos por quês de tudo isso
Música: "Whole Lotta Love" - Led Zeppelin
January 19, 2007 10:49 AM PST
A boca que exclama o verbo
É a mesma que se compadece
Ante a copulação do beijo
E o tato desnorteado
Diante de dois mamilos
E todos seus poros úmidos
A boca é perigosa
Subversiva quando excitada
E seus dentes em constante retaguarda
Ela em sua cadência e natureza
Acesa mesmo rubra
Anseia sempre, sempre anseia
A boca mesmo só
É constante e plural
Tudo dela provém
Porque conspira contra o silencio
E este por si próprio
E rival caído
A boca é indecência
Porque é nua e sem pudor
Decora, devora e deflora
Como num incesto
Todas as zonas da pele
E o corpo festeja e comunga com ela
Quando lateja o orgasmo
A boca quer ser percebida
Em toda sua natureza
Em todo seu álibi e hálito
Do contrário se inflama
Em língua e lábio
E tantas vezes controversa
A boca tem tudo
E não tem razão
Voz: Leandro Lascado
January 19, 2007 09:14 AM PST
E esta frase?
Que faço com ela?
Já não diz mais nada
E pouco faz do que dizer
Ficou calada
Por conta d’um gesto
Um adjetivo estúpido
Um porque descalço
Que morreu de coma
Coisa póstuma à resposta
Uma grande confusão
Que não cabe mais no não
Sem paz e sem medida
Tem um quero profundo
Que incita o verbo
Mas ainda é abstração
E o que fazer com esta frase
Mesmo que mais nada diga
E diz muito pouco do que faz
Ainda calada
Por um gesto sem conta
A estupidez de um adjetivo
E um porque de pés no chão
Que jaz no vazio
Que resposta concebida a esta coisa?
Grande NÃO
A medida da paz perdida
Persiste a voraz quimera
O verbo explode
Mas ainda é abstração
January 19, 2007 08:24 AM PST
Anônimo não tem nome
Tampouco homônimo
Passado ou futuro
Anônimo não tem
Ou se teve ou terá
Não se sabe bem
Anônimo só tem presente
Anônimo não tem pronome
Só substantivo abstrato
Não tem dia exato
Nem sexo
Anônimo não tem nexo
Existe mas é inexistente
Anônimo Não tem patente.
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